sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Memória

Igreja de Oura, onde fui baptizada ( Céu 2010)






No seu prefácio à 3ª Edição de “Novos Contos da Montanha”, escrito a partir de Coimbra em Setembro de 1952, coíncidentemente  o mês e o ano em que nasci, Miguel Torga refere o seguinte:  

 “ (…) Painel tosco e montanhês, como sabes. Mas nosso, quer queiramos, quer não, e dos outros também,  quando a curiosidade dos outros der a volta ao mundo.

Então embora sorriam da ingénua pintura do artista, hão-de certamente render-se à penitente grandeza destes irmãos serranos, que se purificam com sofrimento universal num purgatório de chamas transmontanas. “

Olhando as montanhas que cercam Pamplona, neste agreste Norte de Espanha, lembro-me de outras montanhas, onde fica a minha Terra, a minha Aldeia, as minhas raízes, o meu chão.

Aldeia também ela agreste, com gentes de gestos rudes,  mas afáveis e também bravios, de pele curtida pelo sol e pelo vento Suão, que varre aquelas terras e aquelas gentes sem piedade, como tão bem descreve Torga.

Sejam brancos, verdes ou castanhos, os tons que pincelam a paisagem transmontana, trazem-me à memória  imagens que convidam quase sempre à melancolia…não depressiva mas irrequieta, criativa e aventureira.

Como “as gentes” transmontanas!

Por “sortes” , fui nascer a meio-caminho entre Oura, onde me baptizaram e o Vidago : O Monte Meão.

Ali a poucos passos do agora tão luxuoso Palace Vidago e da “milagrosa” Fonte  Salus , “padroeira” das Águas de Vidago e Pedras.

A casa onde nasci era, à época, a única, agora um bairro desenvolvido,  que junta  Oura  e o Vidago.

Ficava fora de portas, ouviam-se os lobos e os nossos falecidos.

Coisas do outro mundo!

Aos serões sem televisão, sem nada, as conversas giravam à volta de figueiras onde apareciam “caretos” e “assombrações”, homens com cabeça de bicho, ouriçadas de tão enormes.

E nós, os miúdos, de olhos maiores e mais redondos do que bolas de bilhar, ficávamos  mudos e quedos, com medo do escuro e ouvindo o silêncio.

Ansiávamos pelo “chiar” das rodas dos carros de bois,  que lentamente subiam as ruas empedradas da aldeia, pois  anunciavam o amanhecer , as brincadeiras e os “banhos” na Ribeira de Oura.

Quais formigas trabalhadeiras, os homens e as mulheres da minha aldeia saíam cedo para a rua, para trabalhar a terra, desbravando-a e “cortando-a” a poder de braços.

Ainda hoje me questiono  como é possível tirar frutos daquelas enormes fragas!

A minha gente é gente fibra, de granito!

Tal como as suas terras!

Só assim sobreviveram ao sofrimento, ao silêncio, à aridez e à tristeza, atraindo sobre si “as sensíveis criaturas tocadas pela magia da arte e chamadas pelos imperativos da vida” (Torga).



Pamplona, Setembro de 2011



Terras da minha Aldeia  (Céu, 2010)







 

2 comentários:

IMaria disse...

Adorei o teu texto. Um regresso às origens muito emotivo.

Um beijinho
Isabel

Céu disse...

Obrigada Isabel.
Ainda bem q gostaste.
Um beijinho