sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
domingo, 6 de novembro de 2011
Até sempre!
| Relógio (Céu, 2009) |
Hoje, perdi uma Companheira de estrada.
De luta!
Fica-nos um buraco no peito.
Que dói!
Existe, entre as pessoas que sofrem de cancro, uma solidariedade, um entendimento especial.
Uma compreensão do sofrimento e dos medos.
Da ansiedade e da força positiva que é necessária e que também cansa!...
( Ser positivo não é fácil...é preciso ter força e coragem.
Aguentar! )
Por vezes, os joelhos dobram...
É uma compreensão e solidariedade não dizíveis mas objectivas.
Transparentes, para nós, mas nem sempre alcançáveis por todos.
Por vezes, sabemos, sim nós sabemos, com um simples olhar o que o "outro" sente.
O que o "outro" necessita.
E, até, o que pensa.
Se um companheiro perde esta luta desigual, sentimo-nos derrotados, incapazes, frustrados.
De mal connosco. Como se a culpa também fosse nossa.
Como se deixássemos um camarada para trás.
( Como na guerra! )
A ausência definitiva de alguém que travava uma batalha desigual e injusta, atinge-nos brutalmente.
De repente, é como se tivéssemos também de recomeçar o caminho.
De repente, é como se nos amputassem "um membro".
Algo dentro da nossa alma se estilhaça e é levada aos pedaços não sei para onde.
Talvez vá com quem partiu...
Ficou comigo o teu sorriso, Amiga.
Companheira.
Céu
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Poemas com mar ao fundo
| Mar da Rocha (Céu, 2011) |
ESTA GENTE
Esta gente cujo rosto
... Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo
Sophia de Mello Breyner Andresen,
in Obra Poética (Caminho, 2010)
domingo, 9 de outubro de 2011
Livre
| Equilíbrio perfeito (Céu, 2011) |
À Cristina,
Que um dia quis ser pássaro
Queda
LivreVai em queda livre.
Não estava preparada para voar.
Para partir.Há dentro dela uma dor nova.
Mal definida.
Ferida aberta por ter acabado o que
ainda não tinha começado.
Capítulo encerrado
sem nada escrito.
Não sabia como tratar essa ferida,
onde comprar sorrisos e
as palavras que falam.
Envolta em sombras,
ela tem medo.
A partida foi cedo demais.
Ainda não percebe o que se passou.
Rainha sem reino,
amada sem amor.
Não sabe o que fazer da liberdade
que passou a ser sua.
Pânicos agarram-se-lhe ao estômago.
É a liberdade, a grande culpada.
Se fosse corajosa…
Será um dia.
Na distância de tudo, até da alquimia dos corpos.
Na ausência de objecto de choro,
sem razão da perda, grita-se devagar.
Podem ouvir e tirar-lhe o direito de sofrer,
por qualquer coisa que nem chegou a ter.
Sabe que existe e é só!
Vai em queda livre.
Com as asas abertas.
Livre.
Céu
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
"Coisinhas"
![]() |
| Sol de Luz (Céu, 2010) |
"Nunca estou mais acompanhado do que quando estou sozinho"
Cícero
- Quem me dera!...
O tom era de desabafo, um suspiro de saudade. Talvez a saudade,
Saudade de um tempo ...
Saudade de um tempo ...
Virei-me para o vulto que caminhava ligeiramente atrás.
Um rosto de pergaminho, sorridente, afável. Olhos azuis de uma mansidão transparente, clara.
Receei falar.
Podia pensar que me estava a intrometer, às vezes as pessoas querem falar sozinhas!
Continuou,
- Todos os dias venho aqui, menina (tão bom quando me tratam assim!). Eu e a minha irmã.
Num gesto rápido, outro rosto de pergaminho surgiu. Menos "amachucado", mas feito no mesmo molde.
Sorriu tímida e sem falar, anuiu.
- Vimos de Caneças!
E, traquinas, continuou : tomamos o pequeno almoço, passeamos à beira-mar e, depois, voltamos para casa.
Para as nossas "coisinhas".
Desejei ser uma "esponja", para absorver tudo e nada perder daquela lição, daquelas simples palavras...das "coisinhas" pequenas da vida.
Afinal, das que valem a pena.
Da vida, de nada mais teremos saudades a não ser das pequenas coisas!
E o que será isto de a gente se prender às coisas?
Li algures, a propósito, algo que me ficou na memória e que julgo ser de Alçada Batista, em que ele afirmava que, talvez porque cada uma de nós tem uma história cujos personagens e coisas estão associadas, o que fazia a nossa história não era a história do poder nem a dos heróis mas sim a nossa vida quotidiana.
A esta altura, já havíamos parado e conversávamos como "velhas" conhecidas.
Amena a conversa, em que fui sabendo, entre outras confissões, que ambas eram viúvas e que uma tinha duas filhas a viver no estrangeiro.
- Como vê, menina (doce, outra vez), somos ambas sozinhas.
A irmã do sorriso calmo, concordou.
Aquele sorriso também conversava. Sem palavras.
- Repare que não vivemos juntas. Cada uma tem as suas "coisinhas".
Eu sentia, cada vez mais, ternura pelas "coisinhas" e, cada vez melhor, entendia o que eram.
A irmã do sorriso calmo disse, então, com "palavras de dizer" :
- Com estes passeios, conhecemos pessoas com quem nos apetece falar.
A sua voz era bonita, clara e tranquila, como o sorriso. Os olhos, espertos, piscavam luz.
Disse-lhe que assim também aligeiravam um pouco a solidão.
Suspirou, sorriu de novo e perguntou-me o que era a solidão.
- Falam tanto em solidão!... O que é a solidão? Nunca a senti, não sei o que é!
- O que é a solidão? repetiu.
Calei. Estonteei.
Não sabia dizer-lhe.
Ainda não sei o que dizer.
Apesar de tantos conceitos, notas, explicações e dissertações sobre a solidão, ainda não tenho resposta para aquela pergunta, para aquele sorriso!
Agustina Bessa-Luis na sua obra "Dicionário Imperfeito" escreve que a "solidão é necessária ao convívio" e que "há uma parte da solidão que não podemos compor".
Ainda bem, porque é na solidão que assenta a diferença.
E esta não é, seguramente, uma "coisinha" pequena!
Ainda bem, porque é na solidão que assenta a diferença.
E esta não é, seguramente, uma "coisinha" pequena!
Céu
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
A Força de um Abraço
Este vídeo, que mão amiga me fez chegar, trouxe-me à memória os tempos do voluntariado no Serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria.
Foram tempos muito gratificantes!
Nem sempre fáceis...
A minha colaboração era prestada no Pavilhão das Consultas Externas.
"João" tinha 12 anos de idade e era portador de Trissomia 21.
Todos os meses o recebíamos na consulta.
Quando entrava no Pavilhão, entrava com ele a alegria!
Vinha sempre de braços abertos, de rosto iluminado e com um sorriso de fazer espantar as estrelas.
Era terno o seu abraço.
E grátis.
Mas tão valioso!
Sentíamo-nos aconchegados.
Ainda hoje me comovo e enterneço quando me lembro deste menino e do calor do seu abraço.
Obrigada, "João" !
Céu
(Este vídeo insere-se numa iniciativa internacional, que ontem decorreu em todo o mundo.
Em Portugal, a iniciativa esteve em 21 cidades.
O mote dos criadores do evento, parece-me interessante : " se alguma vez pensar que nada na vida é de graça, pense novamente, porque o amor é ! " )
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Poemas com mar ao fundo
ÂNSIA
Não me deixem tranquilo
... não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma
As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma
As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo
MIA COUTO, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas" (Caminho, 2009)
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